DIGRESSÃO A GIBRALTAR (NOVEMBRO DE 1922)

A equipa que jogou em Gibraltar e em Espanha, fotografada em Sevilha

A equipa que jogou em Gibraltar e Espanha, fotografada em Sevilha

Na altura em que a selecção gibraltina viveu um momento histórico ao disputar o seu primeiro jogo oficial na nossa região (no Estádio Algarve, mais concretamente, frente à Polónia) recordamos outra efeméride, quase centenária, da primeira digressão ao estrangeiro do nosso clube. Não encontrámos ainda confirmação absoluta, mas cremos até que se trata dos dois primeiros jogos além-fronteira de uma equipa algarvia. A iniciativa partiu de Custódio Viegas, olhanense radicado em Gibraltar, segundo conta o capitão do nosso emblema na altura, Armando Amâncio, no livro de memórias que publicou na década de sessenta.

Aconteceu nos primeiros dias do mês de Novembro de 1922, quando o Olhanense se deslocou à península e ali disputou dois jogos, que agora recordamos com a ajuda de alguns documentos recolhidos no Arquivo Histórico Municipal de Olhão. O primeiro foi frente a uma equipa denominada “Wanderers” (citada como uma selecção do Exército e da Marinha inglesa) e o segundo contra o Britannia Football Club, fundado em 1907 e um dos principais emblemas nos primeiros anos do futebol naquela península (cujo sucessor é o FC Britannia XI, desde 2009) e que tinha sido campeão dois anos antes.

Segundo o mesmo livro de Armando Amâncio, devido à a boa impressão deixada nesses dois jogos o Olhanense foi convidado pelo governador-chefe local, o General Horace Smith-Dorrien, a disputar um terceiro jogo frente ao Prince of Wales FC, o vencedor do campeonato de Gibraltar nesse ano (e em vários outros anos nessa DÉCADA). Contudo, tal não foi possível devido ao estado de saúde do governador nos dias seguintes.

Poucos dias depois de a nossa equipa ter partido (quando já estava a efectuar um dos jogos em Espanha, mais concretamente em Huelva), teve lugar uma importante cerimónia na península britânica, a inauguração do monumento “Cruz do Sacrifício”. Existe mesmo um filme, “In The Shadow Of The Rock”, realizado pelo BRITISH PATHÉ (que é apresentado historicamente como as primeiras imagens de cinema de Gibraltar), onde se podem ver vários elementos da Marinha e do Exército inglês, no meio dos quais estarão certamente vários dos futebolistas que jogaram contra o nosso clube dias antes.

O monumento em causa foi erigido pelo Real Corpo de Engenharia, os conhecidos “sapadores”, que também tinham uma equipa de futebol, os ROYAL ENGINEERS. Aquele que foi o finalista vencido na primeira final da Taça de Inglaterra em 1872 e que conquistou mesmo o troféu três anos depois, foi um dos clubes mais fortes dos primórdios do futebol inglês. Contudo, nos anos vinte já só se dedicavam ao futebol amador. Ainda assim, é bastante provável que o primeiro adversário internacional do Olhanense fosse em grande parte constituído por jogadores dessa equipa, reforçada com elementos da equipa dos marinheiros, os ROYAL MARINES, com menos tradição na modalidade que os “sapadores”.

As fichas das partidas anotadas por responsáveis do nosso clube

As fichas das partidas anotadas por responsáveis do nosso clube

A formação rubro-negra, que já era composta por uma base bastante próxima da equipa que se sagraria campeã nacional ano e meio depois (destacando-se já Tamanqueiro, Falcate, Montenegro, Belo ou o treinador-jogador Júlio Costa), foi então reforçada com dois atletas do nosso vizinho Farense, o guarda-redes Luís Madeira e o médio José Nugas, algo bastante comum nessas épocas de modo a que a equipa portuguesa que defrontava uma equipa estrangeira se apresentasse mais forte (recorde-se por exemplo que o grande símbolo benfiquista Cosme Damião jogou pelo Sporting, dois anos antes em Huelva). Além destes dois “convidados” estava presente um jogador de nome Pais ou Paez, que não encontrámos mais referências na altura, e cremos que poderá ser também ele um jogador cedido por outro clube algarvio, possivelmente do Lusitano de Vila Real.

Para esta digressão o Olhanense levou um total de treze jogadores, a saber: Luís Madeira (GR), Armando Amâncio, João Graça “Falcate”, José Raimundo, José Nugas, Raul Figueiredo “Tamanqueiro”, Dâmaso da Encarnação “Cassiano”, José Belo, Júlio Costa, Francisco Montenegro, Afonso “Rancheiro”, Henrique Guarda e Paez (ou Pais).

Além dos atletas, integrou e liderou a comitiva o senhor Manuel Jorge (o saudoso “Pai Jorge”) em representação do presidente Cândido do Ó Ventura. No arquivo do “Correio Olhanense”, no número 50, encontrámos uma entrevista do referido dirigente, em que fala com gosto sobre a viagem a Gibraltar e ainda de outras partidas disputadas em Espanha, em Sevilha e em Huelva, que não parecem ser de tão boa memória.

"Correio Olhanense" Nº 50, de 16 de Novembro de 1922

“Correio Olhanense” Nº 50, de 16 de Novembro de 1922

Após os dois jogos em Gibraltar, a nossa equipa jogou mais quatro partidas em Espanha, duas em Sevilha frente ao Nacional FC, e outras duas em Huelva, frente ao Recreativo. Os dois primeiros jogos foram notícia de primeira página num diário local da altura, como se pode ver abaixo.

"El Noticiero Sevillano" de 7 de Novembro de 1922

“El Noticiero Sevillano” de 7 de Novembro de 1922

A classificação do campeonato andaluz no "El Noticiero Sevillano" de 1 de Novembro de 1922

A classificação do campeonato andaluz no “El Noticiero Sevillano” de 1 de Novembro de 1922

O Nacional era uma das equipas de Sevilha, e o recinto em que o Olhanense jogou teria sido inaugurado apenas quatro meses antes, segundo o blog SEVILLA DESAPARECIDA. Em cima pode ver-se a classificação do campeonato andaluz na semana anterior ao jogo e em baixo dois recortes de um diário daquela cidade com algumas impressões dos dois jogos frente ao Olhanense.

"El Noticiero Sevillano" de 7 e de 9 de Novembro de 1922

Recortes do “El Noticiero Sevillano” de 7 e de 9 de Novembro de 1922

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